Porque eu pedi demissão do meu emprego?

ESTRESSE

Eu não tinha um emprego tão ruim. Era realmente bom. Um salário de 1,000 Reais, razoável, uma estabilidade e larga carga de horários.


"O que mais eu poderia pedir?"

Essa era a pergunta que me fazia todos os dias.

Um belo dia, logo após o almoço, peguei uma moto, fui na rodoviária e comprei a passagem de ida para Maragogi.  Eu tinha pedido demissão e tinha data para ir morar em outro estado e começar o meu sonhado mochilão, tirando de mim um grande fardo, que me assolava por muito tempo. Levantei elétrico, respirei fundo, caminhei até a janela e lembrei dos 8 anos que trabalhei ali.
Frio na barriga.

Ao contrário do que você pode pensar, não tenho um trabalho pela frente, nem mesmo um plano para me manter quando voltar de minhas viagens  ou muito menos tenho pretensão de colocar novamente currículos em algum local.

Maragogi é uma cidade de muito significado para mim, as pessoas, o local, a simplicidade as praias, lá tem tudo o que eu mais gosto de ser e de fazer. E agora eu estou indo pra lá.


A prisão do trabalho fixo


Nos ensinaram que dinheiro e segurança nos proporcionariam realização pessoal, então a gente tenta ganhar cada vez mais, mesmo que a satisfação nunca chegue.
Na clínica de dependentes químicos que um amigo trabalha, 90% dos pacientes são funcionários públicos do alto-escalão. Gente que ganha muito bem, mas se perdeu ao longo caminho que escolheu em busca da felicidade.

Minha relação com as pessoas está incrivelmente diferente, principalmente as que mantinha por causa do trabalho. Parece que me libertei de algo que todos tentam e não conseguem.
Todas as pessoas um pouco mais velhas com quem conversei disseram a mesma coisa:


“Queria ter essa coragem.”

Eles não conseguem ver, mas é nítida a expressão de frustração quando dizem isso. Se todas essas pessoas têm vontade de largar seus empregos e chutar o balde, por que não fazem?
O retorno dos meus amigos também me surpreendeu bastante. Vejo agora que a percepção externa da minha relação com meu trabalho era a pior possível. Ouvi coisas fortes de pessoas que comemoraram minha decisão como se eu tivesse ganhado na loteria.

Talvez eles estivessem enxergando algo que eu não conseguia ver, uma trava que o emprego estável trouxe e nunca percebi. Até pessoas que moram bem longe e sabem bem pouco sobre essa minha relação com o trabalho me disseram palavras fortes.

A questão é que, por algum motivo, eu achava que estava feliz no meu emprego. Acreditava que tinha tudo que precisava e que não havia necessidade de mudar.
Era uma armadilha pronta e eu estava caindo direitinho.


O lado bom da demissão


Antes eu acreditava que perder um emprego era o pior cenário possível, mas acabou sendo um portal de oportunidades fantásticas. Sair da empresa foi uma janela mágica para um mundo onde tudo parece ser possível com o devido esforço.

Enquanto você depositar todas suas fichas no salário que pinga no fim do mês, estará condicionado a não fugir dessa realidade.
Esse trecho de um texto do Eduardo Amuri esclarece a ilusão de segurança e o tipo de armadilha que se constrói:
“Nos reservamos o direito de trabalhar quietos, sem palpitar, sem ousar, sem tentar enfiar a bola na gaveta porque temos a crença (muitas vezes correta) de que, se errarmos o chute, ficaremos desempregados. Falidos. Perdemos a chance de propor algo inovador, evitamos bater de frente com o chefe, contemos o questionamento. Muitas vezes, inclusive, deixamos de assumir a postura que a situação pede.
Seria fantástico ir para o trabalho da mesma maneira que um jogador de futebol vai jogar bola com os amigos no final de semana: livre de tantas expectativas. Nosso capitalismo selvagem, porém, nos impõe um pré-requisito bastante crítico para seguir vivendo bem: dinheiro.”
É bem raro assumirmos responsabilidade pela nossa felicidade.
Você queria ser médico e salvar pessoas, mas reclama que não teve dinheiro. Sua mãe não pagou o cursinho. Gostaria de morar na Califórnia, mas sua mãe não te colocou no inglês. Diz que está velho demais para arriscar, o mundo não te deu oportunidade antes.

Tudo isso é besteira.

Se você ainda não morreu, pode dormir 2 horas a menos e estudar para o vestibular. Um amigo que já é formado e trabalha na área de educação física acabou de passar pra medicina, vai seguir o sonho. Você pode aprender qualquer ferramenta para mudar de profissão gratuitamente pela internet, incluindo idiomas. Um amigo que é empresário e tem várias lojas em Brasília largou toda a garantia e foi para os Estados Unidos. Hoje pilota aviões.

Você pode até arriscar e não conseguir, isso é fato.
Mas posso garantir: cada oito, dez, doze vinte, qualquer hora escrava que seja, sentado nessa cadeira culpando a vida pelos seus problemas é um dia de liberdade que perde.
Receber um salário fixo todo mês é confortável, temos a sensação de missão cumprida por ter todas as contas pagas. Enquanto isso, acreditamos que nossos sonhos podem esperar mais um pouco, já que a vida está ganha por mais trinta dias.

Se demitir é o tipo de experiência que desperta um senso de urgência. O impulso para buscar algo novo com todo potencial.

Ao pedir demissão minha cabeça começou a fervilhar de ideias. Tudo o que bato o olho se torna um possível negócio. Gasto um tempo pensando em torno da ideia e depois anoto direitinho dentro do meu Evernote. Agora eu tenho um banco diário de ideias e pretendo testar quase todas, até as mais bobas.

Quando estava empregado minha mente focava apenas em resolver problemas ligados a empresa.  Agora parece que posso resolver todos os problemas do mundo, qualquer dificuldade se torna uma oportunidade para melhorar a vida de alguém.

Não me sentia feliz tendo que ir cumprir ordens, de pessoas que nunca deram a minima para o que eu fazia, sonhando com a quinta-feira de folga, mas que nunca na verdade eu tinha folga, cansaço, estresse, humilhação, falta de reconhecimento, nenhum tipo de reciprocidade eu tinha. Para mim, ser feliz é pegar um ônibus lotado com a empolgação de quem vai mudar o mundo.


Você está feliz onde está?


Quando estava pensando no que fazer quando voltasse dessa viagem, para ser sincero pretendo que a minha vida, seja uma viagem para sempre, desconectar-se desse mundo e reconecta-se com a natureza é hoje o meu maior privilegio, pensei comigo mesmo: eu quero morar na praia. Acordar cedo, correr até a praia, dar um mergulho e pegar um sol. Nunca tinha pensado nisso, mas agora estava claro. “Posso morar em qualquer lugar do mundo, a qualquer hora”. Posso recomeçar em qualquer lugar.

Me senti realmente livre.
Não quero dizer para você sair correndo e se demitir de forma inconsequente. Apenas tente pensar se está realmente feliz onde está, fazendo o que faz.
Pensei comigo mesmo, e fiz minha própria pergunta:


“Agora você vai pra casa, quero que pense no que pode trabalhar para ser feliz de verdade.”

Pareceu estranho na hora, mas agora sei. Estava claro para todo mundo, menos pra mim.
Um exercício interessante é ler essa tirinha escrita por Bill Watterson. e pensar como se sente em relação ao personagem central. Acha ele bobo? Ingênuo? Admira sua coragem? Sente uma leve inveja? Isso já pode dizer bastante sobre o caminho a ser tomado. Quando vi essa tirinha, havia 12 dias que estava demitido. Senti um grande alívio por não fazer mais parte daquele ciclo.

2013-08-27-watterson_traduzido_6201.jpg Tirinha escrita por Bill Watterson.

Se está insatisfeito e pretende fazer algo, corra atrás daquilo que é melhor para você.
Mesmo tendo dado o passo em direção ao que aspirava, sei que corro o risco de falhar nessa minha nova empreitada e, de verdade, estou preparado para isso. Um trabalho mental que fiz enquanto decidia pedir demissão foi aceitar o pior dos casos. Pensei na pior coisa que poderia acontecer comigo no futuro.

Se tudo der errado, vou procurar o emprego mais fácil de se conseguir, mesmo que seja o que pague pior. Pensei em algo como chapeiro do McDonald’s, morando de favores na casa de alguém.
A partir daí, tentar minha nova escalada, dessa vez com mais experiência e conhecimento. Assumi esse cenário e estou disposto a viver essa realidade. Daqui pra frente, qualquer outro cenário é lucro.
E aí, já pensou se as garantias e a certeza de ter o seu belo salário no final do mês na verdade não são apenas as prisões que estão te impedindo de fazer o que realmente tem de fazer?

Com Carinho, obrigado por Ler!
Que Deus te abençoe.
xx, Jamerson

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